segunda-feira, maio 24, 2010

Ilustração - Estou quase pronto

Autor não informado

Um ferreiro depois de uma juventude cheia de excessos,decidiu entregar sua alma a Deus. Durante muitos anos,trabalhou com afinco, praticou a caridade,mas apesar de toda sua dedicação nada parecia dar certo em sua vida; seus problemas e dívidas acumulavam-se cada vez mais.

Uma bela tarde,um amigo que o visitava e que quase se compadecia de sua situação difícil comentou: "É realmente estranho que, justamente depois de você se tornar um homem temente a Deus, sua vida começou a piorar. Eu não desejo enfraquecer sua fé, mas apesar de sua crença espiritual, nada tem melhorado.

O ferreiro não respondeu imediatamente : ele havia pensado nisso muitas vezes, sem entender o que acontecia em sua vida. Entretanto, como não queria deixar o amigo sem resposta, começou a Eu-falar e encontrou a explicação que procurava. E disse ao amigo: recebo nesta oficina o aço ainda não trabalhado e preciso transformá-lo em espadas. Você sabe como isso é feito? Primeiro eu aqueço a chapa de aço num calor infernal até que ela fique vermelha. Em seguida, sem qualquer piedade eu pego o martelo mais pesado e aplico vários golpes até que adquira a forma desejada. Logo,ela é mergulhada num balde de água fria, e a oficina inteira se enche com o barulho do vapor, enquanto a peça estala e grita por causa da súbita mudança de temperatura. Tenho que repetir esse processo até conseguir a espada perfeita: uma vez apenas não é suficiente. O ferreiro deu uma longa pausa, e continuou: vezes, o aço que chega até minhas mãos não consegue agüentar esse tratamento. O calor, as marteladas, e a água fria terminam por enchê-lo de rachaduras. Eu sei que jamais se transformará numa boa lâmina da espada. Então simplesmente coloco no monte de ferro velho que você viu na entrada de minha ferraria.

O ferreiro concluiu: Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Tenho aceito as marteladas da vida, as vezes sinto-me tão frio e insensível como a água que faz sofrer o aço. Mas a única coisa que peço é que Deus não desista, até que eu consiga tomar a forma que o Senhor espera de mim.

Solidão?

“Porque o Senhor tem piedade de Sião; terá piedade de todos os lugares assolados dela, e fará o seu deserto como o Éden, e a sua solidão, como o jardim do Senhor; regozijo e alegria se acharão nela, ações de graças e som de música” (Is 51.3).

Há momentos em nossas vidas em que seria tão bom podermos dividir o peso das dores que sentimos, ou ao menos ter alguém que possa nos ouvir e trazer-nos uma palavra de conforto, mas, não é sempre que podemos contar com essas pessoas. Ocorrem situações em que nos encontramos totalmente sós.

Já passei por situações em que Deus não permitiu nem ao pastor enxergar minha necessidade, mesmo que eu lhe falasse quais meus problemas ouvi um: "O Senhor vai te abençoar" e nada de socorro. Não era sua culpa, assim como Israel foi levado ao deserto para poder experimentar a provisão de Deus, fui levado também para saber de onde viria meu socorro. Quando se está no deserto tudo que se vê ao redor é aridez, nesse instante você deve compreender que chegou a hora de olhar somente para cima.

Você pode não ver o Senhor, pode não ouvir sua voz quando está orando, muitas vezes Ele mantém o silêncio para fazê-lo lembrar que, muito mais que falar conosco, ele está agindo na história para fazer com que seu propósito se cumpra em nossas vidas. Em meio a sua jornada nesse vale de lágrimas, saiba que jamais andarás a sós. Nem mesmo o deserto poderá lhe vencer, pois, mesmo com sua aridez, águas vivas fluem da vida dos que conhecem e vivem para Jesus. Basta confiar para, no final dessa jornada, ver a glória de Deus.

segunda-feira, maio 17, 2010

Devocional - A Oração de Jabez

“Jabez invocou o Deus de Israel, dizendo: Oh Tomara que me abençoes e me alargues as fronteiras, que seja comigo a tua mão e me preserves do mal, de modo que não me sobrevenha aflição! E Deus lhe concedeu o que tinha pedido ” (Sl 40.1).

Jabez era da tribo de Judá, da linhagem de Jesus. Sua petição é uma tipificação do que ocorrerá aos que crerem em Cristo, fronteiras alargadas, bênção eterna e também alegria constantes. Essa tipificação é parte da cosmovisão do Isarael primitivo, que sofreu evoluções e isso se observa nas Escrituras, a respeito da vida de quem serve e confia em Deus. Não necessariamente ocorreu que Jabez jamais precisasse trabalhar para seu sustento, ou que não pudesse ter dificuldades familiares, ou que depois disso jamais passasse por alguma privação qualquer. A resposta à oração de Jabez era a presença divina constante em sua vida, por meio de sua fé, que lhe dava condições de superar tudo sob a graça do Pai. Sua fé lhe era suficiente para lidar com seus problemas e isso, sob o amor e orientação de Deus, era por demais maravilhoso. Isso não quer dizer, porém, que Jabez ficou milionário da noite para o dia, que seus vizinhos lhe deram suas terra e que ele viveu de pernas para cima. Isso não é vida para um servo de Deus, pois se Deus trabalha até a noite e Jesus também, então, também temos que lutar todos os dias pelo pão.

O próprio Cristo disse: "No mundo passareis por aflições..." (Jo 16.33), informando-nos que não estaremos isentos de dificuldades, ao contrário, devemos glorificar e das graças a Deus por provações que passamos (Tg 1.2-4; cf. Hb 12.9-12). O justo viverá segundo a fé das Escrituras e não segundo suas vontades, pois, conhecemos que a vontade do Senhor que é: "perfeita, boa e agradável" (Rm 1.16,17; 12.2; Hb 10.37-39).

Não andemos ansiosos pelo dia de amanhã, para satisfazer nossos desejos de consumo e termos uma vida material próspera. O Senhor é quem nos sustenta e, em sua fidelidade, não nos desamparará. Se formos provados que o sejamos para a glória de Deus, se obtivermos paz e refrigério que o nome do Senhor seja louvado.

Enfim, na tristeza ou na felicidade, na saúde ou na doença, na angùstia ou na paz, que a noiva de Cristo glorifique seu nome!

quinta-feira, maio 13, 2010

Breve Comentário de Eclesiastes 12.1-8



Tradução literal


1. E lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, antes que suceda os dias da desgraça e cheguem os anos dos quais dirás: “Não sinto neles prazer”.
2. Antes que se escureçam o sol e a luz, a lua e as estrelas, e voltem as nuvens depois da chuva.
3. No dia que tremerem os guardas da casa e curvarem-se os homens de força, quando folgarem do trabalho as moedoras, por serem poucas; e obscurecerem-se os olhos dos que olham pela janela;
4. quando se fecha a porta da rua e o barulho do moínho baixa, quando se acorda ao cantar do pássaro e as filhas do cantar enfraquecem.
5. Quando se teme a altura e se sentem pavores no caminho; quando florescer a amendoeira, o gafanhoto andar se arrastando e a alcaparra estalar, é porque o homem já está a caminho de sua morada eterna, e os que o pranteiam vagueiam pela rua.
6. Antes que se rompa a corda de prata e se quebre a taça de ouro, e se quebre o jarro junto a fonte e a roda se quebre na cisterna,
7. quando retornar o pó a terra, como era, e o espírito retornar para Deus que o deu.
8. Vaidade das vaidades – diz Qohelét – tudo é vaidade.

Nota introdutória

O capítulo 12 contém uma emocionante “Alegoria à Velhice”. Aqui, a maioria dos comentaristas entende que a perícope pretende descrever a progressiva debilidade e decadência do homem na velhice, porém, há mutias discordâncias nos detalhes. Muitas orações não parecem ser alegóricas, mas soam mais autênticas se forem entendidas como uma descrição literal, eufemista, da situação do “velho”. Adicionalmente, o que seria o significado dessas alegorias, soa um tanto obscuro.

Alguns comentaristas, afirmam que algumas frases descrevem a perda da força num órgão específico do corpo (Talmude, B. Shab. 152a; Midrash; Ibn Ezra). Em apoio a essa interpretação, o Talmude, loc. cit., cita o Rabino Joshua ben Hananiah e a descrição de sua própria situação: “A montanha é neve, isto é, cercada pelo gelo, os cães não latem mais e os moedores não móem”. A passagem talmúdica lida com figuras como “neve e gelo”, cada uma simbolizando a velhice; por isso, a falta de “latido” e “moedores” sugere o enfraquecimento da voz e a perda dos dentes. Isto empresta ajuda para a interpretação de 12:3 somente, não para os demais versos. Enquanto a interpretação alegórica parece plausível, ou até mesmo possível, em alguns versos isso é forçado e o poder poético da seção é gravemente afetado.

O devanecimento da vida é descrito como a chegada de uma tempestade, enquanto o lar do idoso é preenchido de terror que tenta, infrutiferamente, superar o medo do fim. Essa “Alegoria a Velhice” serve de alerta para percebermos a transitoriedade da juventude e da vida.
Comentário

Cap. 12:1 - “E lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, antes que suceda os dias da desgraça e cheguem os anos dos quais dirás: “Não sinto neles prazer”.

Aqui se inicia impropriamente outro capítulo. O verso 9, do capítulo 11, é o princípio da narrativa que se segue, e que também muda de direção os discursos anteriores. Podemos afirmar isso através da conjunção “waw” (que está no princípio do texto ( “E” lembra-te), que serve de conectivo com o texto anterior. Há na primeira frase do texto um interessante jogo de palavras, trazido no plural. A palavra boréyar é igual a yshym como uma desiginação do Criador ysheh. O Yod foi deletado na base de vários manuscritos por S. Baer, para forçar a tradução no singular, mas isso não era necessário. A tradução feita no singular não é uma evidência da ortografia sem o Yod, tanto que o Texto Massorético é atestado por todos os demais manuscritos do Antigo Testamento. Para fazer isso S. Baer seguiu uma orientação própria. A forma que conhecemos, com Yod, geralmente sugere a grandeza e majestade de Deus (plural majestoso) e é usada em outras referências ao “Criador” em Jó 35:10, Is 54:5, Sl 149:2, Jó 35:10 e no Midrash Gen. Rab., Cap. 10. Num livro tão recente como o Eclesiastes, isso não pode nos surpreender, desde que não seja totalmente estranho para a linguagem pós-bíblica. Por isso, vimos que a expressão no singular, como uma designação do Criador, também é autorizada pelo Mishná (e.g. Horajoth iii, 3; Nedarim x. 4) que interpreta assim essa combinação de palavras. A palavra “juventude” também está no plural, mas traduzí-la literalmente soaria estranho na língua portuguesa, sendo preferível que esta também esteja no singular. Esse tipo de resolução não afeta em nada a mensagem original, que, com efeito, seria óbvia tanto no plural quanto é no singular.

Alguns eruditos alteram Criador boréyar para significar “bem” (bwrr), fazendo a passagem referir-se figuradamente à fidelidade no casamento (cf. Pv 5:15-18). Falta evidência para isto nos manuscritos. Além do que já vimos acima, passagens paralelas (Dt 8:18; Ne 4:14), a gravidade da ordem (vers. 2-6), o contexto religioso (cf. 11:9; 12:13s.), tudo exige que a tradução seja Criador.

Finalmente, podemos agora dizer que o homem não deve procurar apenas seu bem-estar (11:1ss) mas, principalmente Aquele que o criou. Combinam-se a aptidão e a obrigação. Retrata-se a fragilidade crescente do homem numa série de quadros.

A linguagem vívida “deu origem aos mais selvagens vôos de interpretação imaginosa” (Hertzberg). Gordis está correto ao afirmar que “aqui se retrata a velhice, sem que haja uma linha de pensamento constante”. Quer isto dizer que os quadros agrupam-se em duas categorias: as duas imagens do versículo 2 poderiam bem ser dois aspectos de uma tempestade, enquanto os versículos 3s. permanecem juntos como retrato de uma casa decadente. Agora os dias são maus, cheios de fraqueza, de desamparo na velhice, de perceptível falha da força física e mental; e, paralelo a isso, estão aqueles anos dos quais nós nos tornamos capazes de falar: “Não sinto neles prazer”.

Ver. 2 - “Antes que se escureça o sol e a luz, a lua e as estrelas, e voltem as nuvens depois da chuva.”

Percebemos agora o ar frio do inverno, enquanto a chuva persiste e as nuvens transformam a luz do dia em penumbra, e, então, a noite em trevas. Para M. Eaton é desnecessário arranjar interpretação para sol... luz... lua... estrelas.... A idéia geral é clara: A imagem costumeira do VelhoTestamento para trevas como capacidade decrescente para desfrutar a alegria. De modo semelhante, o retorno das nuvens provavelmente se refere à sucessão contínua de tristezas. Porém, Delitzsch descreve aqui uma alusão aos espírito, à luz do auto-exame, à alma e aos cinco sentidos! Retomando à Nota Introdutória, vamos levar em conta comentários que afirmam que, algumas frases se referem a perda de força em órgãos específicos do corpo humano (e outras circunstâncias que geram uma certa depressão).

A. O sol se refere ao brilho do rosto ou da testa. “A luz” são os olhos ou o nariz (Targum). “A lua” são as bochechas ou a alma (Targum). “As estrelas” são os globos oculares (Targum) ou as bochecas (Talmude Rashi).

B. O céu escuro é prenúncio de tempestade.

C. Tomando literalmente – “Para o velho, o mundo prossegue na escuridão porque mesmo depois da chuva, não é o sol, mas, as nuvens que vão surgir”.

Ver. 3 - “No dia que tremerem os guardas da casa e curvarem-se os homens de força, quando folgarem do trabalho as moedoras, por serem poucas; e obscurecerem-se os olhos dos que olham pela janela” O quadro revela, agora, sintomas da velhice. Os guardas da casa sugerem a falta de capacidade do velho se proteger de ameaças externas, ou referindo-se a fraqueza em seus braços. Os homens de força parecem referir-se às pernas, que em outra passagem relacionam-se com força (Sl 147:10). As moedoras são os dentes que caem na velhice; os olhos dos que olham pela janela identificam os olhos que escuressem-se na idade avançada.

Nesta passagem, também seria muito interessante repetir da Nota Introdutória a interpretação talmúdica do Rabino Joshua ben Hananiah, em sua descrição, quanto à perda de forças na velhice: “A montanha é neve, isto é, cercada pelo gelo; os cães não latem mais e os moedores não móem”. A passagem talmúdica lida com figuras como “neve e gelo”, cada uma simbolizando a perda de forças e a velhice, por isso, a falta de “latido” e de “moedores” sugere o enfraquecimento da voz e a perda dos dentes.

Ver. 4 - “quando se fecha a porta da rua e o barulho do moínho baixa, quando se acorda ao cantar do pássaro e as filhas do cantar enfraquecem”.

É possível que o quadro do casarão em decadência “deveria ser analisado em sua integridade, e não laboriosamente desmembrado nas metáforas que o constituem” (Kidner). Como dito anteriormente, há muita diversidade na interpretação dos detalhes.

Depois dos olhos e da boca, procedemos para o ouvido e a repugnância do velho com qualquer som que perturbe seu descanso. Quando se fecha a porta da rua e o barulho do moínho baixa (...) e as filhas do cantar enfraquecem, alude a sua fraca audição, porém, o velho, em seu descando, acorda ao cantar do pássaro, pois tem o sono tão leve que até mesmo o pipilar dos passarinhos o despertará. Mesmo com a audição prejudicada é plausível que o quadro se refira ao despertar erraticamente, de madrugada.

Ver. 5 - “Quando se teme a altura e se sentem pavores no caminho; quando florescer a amendoeira, o gafanhoto andar se arrastando e a alcaparra estalar, é porque o homem já está a caminho de sua morada eterna, e os que o pranteiam vagueiam pela rua”.

Suspende-se por algum tempo o uso de imagens: o velho tem medo de altura e de viagens. A amendoeira que floresce diz respeito ao cabelo que se torna cinzento, e depois prateado. O gafanhoto andar se arrastando refere-se ao caminhar difícil e até incerto dos anciãos. A alcaparra estalar indica a falta de apetite ou de paladar na velhice; a alcaparra aparentemente era um estimulante dos apetites físicos, talvez até afrodisíaco, possivelmente referindo-se à falta de interesse sexual dos idosos.

Enfim, a explicação do porque dessa decadência sistêmica: o homem já está a caminho de sua morada eterna, assim a morte é o clímax de um processo que se inicia na vida, no nascimento. Por último, os que o pranteiam vagueiam pela rua, enfatizando a tristeza de todos os homens que está, inevitavelmente, ligada ao mesmo processo até a morte.

Ver. 6 - “Antes que se rompa a corda de prata e se quebre a taça de ouro, e se quebre o jarro junto a fonte e a roda se quebre na cisterna” O advento da morte é pintado metaforicamente neste verso.

De acordo com a maioria dos comentaristas, duas figuras são empregadas: uma taça e uma fonte. A taça (ou bola - Delitzsch, ou lâmpada - Gordis) de ouro, segura por uma corda de prata é estilhaçada quando esta se rompe, e seu brilho desaparece. A imagem pode ser baseada em Zc 4:2-3. A segunda figura apresenta o quebrar do jarro junto a fonte, fazendo com que a roda se estilhace na cisterna.

Abraham Ibn Erza, argumenta convincentemente que aqui há somente uma figura, onde a corda está amarrada à roda. Uma ponta da corda está amarrada no jarro, a outra na taça (para essa interpretação a palavra bola seria mais coerente, assim a utiliza o comentarista) de ouro, como contrapeso. Quando a corda se rompe, bola, jarro e roda caem e quebram.

Algumas identificações mais detalhadas são propostas: a corda de prata é a língua (Targum) ou a espinha (Rashi Ha Levi), ou a alma (Delitzsch). A taça de ouro é a medula (Targum Ha.) ou a cabeça (Delitzsch). O jarro é o fígado (Targum), ou o estômago (Rashi Ha Levi), ou o coração, e a roda é o corpo (Targum) ou o globo ocular (Rashi Ha Levi).

Todas essas equivalências estão longe de serem conclusivas, não somente por causa de tantas variações, mas porque tornam a passagem excessivamente prosaica.

Além disso, desde que o verso segue a referência “morada eterna” (v.5), devemos aceitar que ele só se refira à morte, isso é preferível à referência a detalhes específicos.

A “Alegoria à Velhice” é utilizada no apocalipse siríaco de Baruc para descrever a decadência do mundo: “A juventude do mundo é passado e a força da criação já está exausta, e o advento dos tempos está próximo, sim, ele vai acontecer. O jarro está perto da cisterna, o navio do porto, e o curso da jornada ruma para a cidade, e a vida para a sua consumação” (II Baruc 85:10).

Ver. 7 - “quando retornar o pó a terra, como era, e o espírito retornar para Deus que o deu”.

O verso reflete a familiaridade de Qohelét com a Torá, baseando-se obviamente em Gn 2:7 e 3:19. A estrutura paralela da passagem inteira torna possível assumir que essa parte (parte b do verso) é uma interpolação, enquanto a supressão do verso inteiro poderia privar o poema de um impressionante desfecho.

A alegoria, que se inicia com uma exortação “lembra-te do teu Criador”, termina com o retorno do espírito do homem a Deus “que o deu”. Aqui Qohelét não pode negar que a vida vem de Deus e a Ele pertence, portanto, a Ele retornará.

Ver. 8 - “Vaidade das vaidades fala Qohelét é tudo vaidade”.

A decadência e a morte trazem Qohelét de volta às suas primeiras palavras. O fenômeno da morte é o exemplo supremo de reino terrenal, aquilo com que o Qohelét começou (1:2). Tendo aprovado sua tese, seu trabalho chega ao fim.

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quinta-feira, maio 06, 2010

Como hieróglifos se tornaram alfabetos - Parte II


Gardiner corretamente viu que cada ideograma tem um valor acrofônico único: A imagem não está representada pela palavra, mas apenas para o seu som inicial. Assim, o pictograma bêt, "casa", desenhada como as quatro paredes de uma habitação, representa apenas a primeira consoante b. Baalat é escrito como mostrado no desenho, nas áreas azuis em destaque (embora a tav final não é legível na linha A).


Este princípio engenhoso é a raiz de todos os nossos sistemas alfabéticos. Cada signo neste script representa uma consoante na língua. (Vogais não estavam representadas. A representação das vogais veio mais tarde, e de diferentes formas em diferentes sistemas alfabéticos).


O alfabeto foi inventado em dessa maneira, cananeus na Serabit na Idade do Bronze, em meados do século 19 aC, provavelmente durante o reinado de Amenemhat III, da dinastia XII.


Estamos razoavelmente confiantes sobre o lugar da invenção, porque quase todos os exemplos do novo roteiro, que agora podemos identificar pelo nome são chamados por estudiosos de Proto-Sinaítico a partir deste sitío.


Nós também estamos confiantes sobre o tempo da invenção porque existem algumas conexões muito específicas entre os hieróglifos egípcios do Reino Médio no Sinai e o script. Há um hieróglifo que parece ter um uso especial, com muito poucas exceções, somente nas inscrições hieroglíficas do Egito, no Sinai, durante o Reino Médio. Nós poderíamos chamá-lo de "Hieróglifo Sinai". O sinal parece um homem caminhando com brasços dobrados e erguidos. Nas inscrições hieroglíficas egípcias do Sinai, este sinal é um logograma, ou seja, ela representa uma palavra inteira, não apenas parte de uma palavra. Provavelmente significa algo como "chefe". Este hieróglifo aparece dezenas de vezes em inscrições egípcias no Médio Reino de Serabit. (Sua leitura fonética em egípcio neste uso específico no Sinai, no entanto, é desconhecido). Este hieróglifo é rara, mesmo depois de novas inscrições no Reino Egípcio de Serabit. E ele quase nunca aparece em qualquer outro lugar do Egito.



Uma letra no novo alfabeto Proto-Sinaítico se parece muito com outra dos hieróglifos do Reino Médio do Egito. O símbolo Proto-Sinaítico certamente descente diretamente do hieróglifo egípcio.






Os cananeus de Serabit provavelmente ligados ao pictograma, visto em toda parte no sitio, deviam entendê-lo como um grito ou ordem emitida por um funcionário que levantava as mãos para convocar o povo, uma mensagem típica como Hoy! Também conhecido em hebraico bíblico, que pode ser a origem da letra h no script Proto-Sinaítico. [Nos ais proféticos segue ao "ai" introdutório (hoy) um substantivo, adjetivo ou, muitas vezes, um particípio ativo que caracteriza uma pessoa ou um grupo de pessoas por sua conduta persistente: "Ai daqueles que desejam o dia de Javé!" (Am 5.18.) "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal." (Is 5.20; cf. Mq 2.1.) – não quer dizer que tenha o mesmo sentido do hoy deste artigo. Nota minha].


Se eu estou certo que o primeiro script alfabético foi inventado em Serabit el-Khadem, no reinado de Amenemhat III (meados do século 19 aC). Eu acredito que posso explicar plausivelmente o processo pelo qual ela foi inventada, não por escribas sofisticados, mas comparativamente com os trabalhadores analfabetos asiáticos.


Os inventores de Serabit claramente utilizaram modelos tomados dos hieróglifos do Reino Médio do Egito em seu Os pictogramas Proto-Sinaíticos foram adaptados a partir dos pictogramas hieróglifos e apareceramm principalmente na área das minas de turquesa e das estradas que levavam às minas.


Pode parecer estranho, mas acredito que os inventores do alfabeto eram analfabetos, ou seja, eles não sabiam ler egípcio com suas centenas de sinais hieroglíficos. Porque eu penso assim? As letras nas inscrições Proto-Sinaíticas são muito brutas. Elas não são do mesmo tamanho. Elas não são escritas em uma única direção: Alguns são escritos da esquerda para a direita, outros da direita para a esquerda e alguns de cima para baixo. Isto sugere que os escritores não tinham dominado a escrita, nem hieróglifos egípcios, ou nem qualquer outro escrito mais complexo de outros governos mais modernos.






Para esses cananeus analfabetos os significados pictóricos das letras novas foram primordiais. O significado icônico dos hieróglifos (que eles realmente desenharam) serviu como um importante instrumento mnemônico para os escribas cananeus. O significado icônico dos hieróglifos era tão importante que, mesmo hoje, quando as letras hebraicas perderam todos os ícones de conexão com os modelos pictóricos antigos (não podemos reconhecer o que as letras são nas imagens), a maioria das letras mantém ainda o nome antigo das imagens!


A letra Aleph hebraico moderno é o “alp”, a palavra para "boi ", a letra bêt é a Bayt ou "casa"; a letra ayin, "olho", é o nome da velha letra pictórica no escrito proto-cananeu (ver desenhos, perto do final do artigo). Mas olhando um Aleph hebraico moderno, bêt ou Ayin, não podemos deixar de ver o boi, a casa ou o olho (e nem são estes pictogramas originalmente evidentes nas letras latinas A ou B).



Principalmente tendo hieróglifos egípcios como modelos pictóricos, os inventores cananeus do alfabeto usaram uma pequena seleção de pictogramas que eles escolheram de uma maneira completamente nova, sem referência (e não por conhecimento) a leitura correta dos sinais no Egito!





Confirmando a sua ignorância sobre o significado dos hieróglifos egípcios, os inventores do alfabeto cananeu, às vezes, confundem dois pictogramas hieroglificos. Por exemplo, hieróglifo egípcio faz distinção entre dois tipos diferentes de cobras. Um sinal pictórico é de uma cobra geralmente e o outro mostra uma víbora com chifres. Esses pictogramas são sinais diferentes para sons diferentes no Egito, o primeiro para o som "DG" e para o segundo, "F." Essas duas cobras nunca são confundidos na escrita egípcia. Os inventores do alfabeto cananeu, no entanto, não notaram a diferença e simplesmente confundiram as duas cobras em um único sinal Proto-Sinaítico que eles usaram para a letra "N", da sua palavra "cobra", provavelmente nahash.



Para algumas letras, os cananeus tomaram como modelos não hieróglifos, mas os objetos importantes de seu próprio mundo. Por exemplo, um desenho da palma da mão representa "K, KAF", em Canaã, não há pictograma de uma palma de mão em hieróglifos egípcios. O mesmo ocorre com o sinal do Proto-Sinaítico que descreve um arco composto, não há sinal comparável em egípcio. No Proto-Sinaítico significa "SH", a palavra “arco composto” em Canaã era as-na-nu-ma ou algo parecido. Estes exemplos representam criatividade independente por parte dos inventores cananeus do alfabeto e tendem a confirmar que estes tomaram os sinais hieroglíficos idiossincráticos sem levar em conta a sua função ou valor em egípcio.


Podemos ser ainda mais específicos sobre quem são os inventores do alfabeto foram: Podemos até saber seus nomes. Eles aparentemente surgiram dentre o círculo de Khebeded. Ele é mencionado em várias inscrições hieroglíficas egípcias no sitio e é referido como o "irmão do governador de Retenu. Retenu foi uma área entre Gaza e Baqaa, no Líbano. "Governador do Retenu" foi o título dado pelos governantes nessa área do Levante. Quando os governantes asiáticos migraram para o Delta oriental, parece que eles mantiveram o título de "Rei de Retenu." É claro que "Khebeded, irmão do governador de Retenu" é um cananeu. Em uma estela em Serabit (Stela 112), há imagens de Khebeded orgulhosamente montado em um jumento, com um atendente a frente e outro atrás. Nenhuma imagem poderia ser de um egípcio montado num jumento. Em outra estela no sitio, Khebeded é retratado com o vestido cananeu típico, com cabelo de cogumelo". A partir das referências nestas estelas, parece que Khebeded estava envolvido com expedições egípcias a Serabit por mais de uma década. Ele é claramente o cananeu de mais alto nível, que deixou uma inscrição hieroglífica no templo de Serabit. Ele foi provavelmente o líder da força de trabalho dos cananeus.





A qualidade dos hieróglifos com a inscrição que Khebeded acrescentada em uma estela (que ele só acrescentou numa estela com os melhores hieróglifos que eles podiam fazer) no templo é muito pobre. Sua inscrição na estela 92 teria sido um embaraço para um escriba egípcio educado (veja imagens no final do artigo), 0s sinais hieroglíficos de diferentes tamanhos estão amontoados ao lado da outro, e espaços vazios aparecem no final da linha. Mas os pictogramas em hieróglifos da Stela 92 ostentam uma notável semelhança com os sinais nas inscrições Proto-Sinaíticas. Talvez o mais impressionante é o pictograma para "casa", no texto hieroglífico da Stela 92. A semelhança com a “casa” nas inscrições Proto-Sinaíticas que representa bêt é inconfundível, mas é muito diferente do original hieróglifo egípcio.



As únicas inscrições egípcias onde a casa quadrada é constantemente utilizada vêm desta área do Sinai e do Reino Médio. E aparece inequívoca várias vezes na Stela 92, o que provavelmente é um texto hieroglífico feito por cananeus, que estavam familiarizados com as inscrições Proto-Sinaíticas. Eles confundiram a imagem da sua "casa própria", com o hieróglifo egípcio correto!


O alfabeto Proto-Sinaítico pode muito bem ter sido inventado no círculo do cananeu Khebeded e seus seguidores, cujos nomes aparecem na sua estela.


John Darnell, que descobriu uma inscrição de duas linhas Wadi el-Hôl (perto de Tebas), semelhante as inscrições Proto-Sinaíticas de Serabit (veja o quadro "A Inscrição Wadi el-HOL: Mais cedo que Serabit?"), sugeriu que o alfabeto deve ter sido inventado no Egito, em um local com "uma pluralidade de contextos culturais". Mas não é "uma pluralidade de contextos", uma descrição exata de Serabit no Reino Médio?




Foi realmente um mundo em si mesmo. Os trabalhadores das minas passavam longos dias e noites no deserto, isolados, solitários em seus campos. O trabalho era difícil, perigoso e as longas expedições, sem dúvida, custaram muitas vidas. Os cananeus assistiram os egípcios orando, adorando e escrevendo para os deuses. Quando um nome era escrito, ele pertencia a esse deus para sempre. Quando uma bênção era procurada, eles permaneciam com seu deus por muito tempo após o momento de oração.



O isolamento, o medo, a pressão e a súbita valorização de se "eternizar o nome de" conduziria naturalmente os cananeus a tentar escrever seus próprios nomes, de seus próprios deuses, (Baalat e El) em sua própria língua.


Foi a natureza cognitiva sedutora da escrita hieroglífica, com suas centenas de pequenos quadros, que fez alguns trabalhadores cananeus em Serabit sentir que poderiam "quase ler" e que lhes deu a sensação de "Yes, we can"?


Como já mencionado, a grande maioria das inscrições desse alfabeto são provenientes da área de Serabit - mais de 30 deles. Apenas um veio de outro lugar no Egito (as duas linhas de inscrição Wadi el-Hol). Alguns poucos, inscrições muito curtas (a maioria de um par de letras) foram encontradas em Canaã, e datam do final da Idade do Bronze e da Idade do Bronze Antigo (c. 1750-1200 aC).




O alfabeto não foi um sucesso imediato, pelo menos com base nos exemplos existentes. Uma coisa é certa: ele não viajou rápido. Raramente um viajante cananeu ou soldado levava o alfabeto para outro lugar. Somente depois de meio milênio depois de sua invenção, o alfabeto foi raramente usado, pelo menos na medida em que é refletido no registro arqueológico.


Como o semitista Seth Sanders observou: "Nesta fase inicial, o alfabeto é uma ferramenta rápida e suja de trabalhadores estrangeiros, rabiscadas em lugares desertos: as minas, a erupção de terror. Não existe uma alta cultura lá ... A primeira utilização documentada do alfabeto move-se violentamente para baixo, na forma mais básica de comunicação, do tipo – “eu estive aqui”.


O Reino Médio no Egito foi seguido pelo que é conhecido como o período dos hicsos (as dinastias XV-XVII: 17o-16o séculos aC). No período dos hicsos, os cananeus governaram o Egito. (Este período é freqüentemente citado como um modelo para a ascensão ao poder de José no Egito, conforme descrito em Genesis 37-47.) Tal como referido anteriormente, a capital dos hicsos em Tell el-Daba tem sido intensamente escavada há quase 40 anos pelo arqueólogo vienense Manfred Bietak e sua equipe. Nem uma única inscrição Proto-Sinaítica foi encontrada lá. Os cananeus governantes de Avaris nunca adotaria tal subdesenvolvida, "primitiva", "escrita" de classe baixa para os seus próprios registros. Quando eles se apresentaram nas inscrições (que são escassas em Avaris), foi, naturalmente, no prestigiado hieróglifo egípcio.


Como a escrita alfabética vagou com caravanas cananéias, que piedosamente conservaram suas formas pictóricas por centenas de anos, as pessoas aprenderam as letras uns dos outros por via oral. Este tipo de utilização, de natureza não pictórica dos sinais, foi muito importante. Foi fácil aprender o alfabeto simplesmente decorando as imagens. O primeiro som da imagem foi a letra. Para lembrar o alfabeto, tudo o que tinha a fazer era memorizar as imagens. O restante seguiu de que: O "nome" da letra leva a uma imagem, o que ajuda a recriar a forma da letra: Abaixo você pode ver a cabeça de boi em forma da letra “aleph”, a caixa-casa em forma de (BET) para "B", a mão – kaf para "K", linhas onduladas representam mayim ("água") ou "M", o nahash é a serpente para "N", o olho é ayin e a cabeça - rosh para "R."









Durante este período inicial (até os séculos 13 a 12), a escrita continua a ser utilizada de forma muito restrita, principalmente para gravar os nomes de pessoas e divindades. Nenhum governo, instituição ou escola escriba estava envolvida. Nenhum funcionário detentor do poder tinha interesse em manter ou desenvolver esta invenção subversiva dos nômades. Isso provavelmente porque criações individuais dos sinais diferem muito amplamente, mesmo que sempre preservando a sua iconicidade fundamental.

Durante o século 12 aC, a civilização dominante que havia cultivado os escritos hieróglifos complexos e a escrita cuneiforme da Mesopotâmia e do Egito, caiu do poder. Novos povos israelitas, fenícios, moabitas e arameus apareceram em Canaã e no Levante. Para essas pessoas novas, emergentes na periferia de grandes culturas antigas, era natural escrever no sistema de franja (?) - nascido da escrita que viajou em seu próprio ambiente. Muito apropriado para sua língua, suas necessidades sociais e suas identidades recém-criadas.

Às vezes, durante esse período de mudança, o novo escrito deve ter-se institucionalizado, talvez até promulgado em escolas. Como resultado, o escrito rapidamente passou por um processo de linearização e abstração. Escritores mais experientes poderiam abandonar o link pictórico entre a letra e o seu nome. Nesta fase, o escrito "das caravanas" perdeu um dos seus maiores facilitadores: o seu poder de memorização. A partir deste momento (séculos 12 a 11 aC), o usuário da escrita teria de aprender uma lista de sinais arbitrários. Seria difícil, senão impossível, encontrar as fotos de um touro, uma cabeça ou uma cobra na escrita.

Durante o século IX aC, o alfabeto tornou-se o certificado oficial de todo o Oriente Médio. Com a adoção do primeiro para o grego, e mais tarde para a América Latina, a escrita alfabética, inventado no meio dos cananeus mineiros no deserto do Sinai remoto, tornou-se o roteiro da civilização ocidental.
O alfabeto foi inventado apenas uma vez. Todos os certificados alfabéticos derivam-se deste original, que podemos chamar de escrita Serabit alfabética.

A invenção do alfabeto, alterado a longo prazo, esteve nas vidas de milhões de pessoas por milênios. Não foi inventado pelos escribas e nem aprendido nas escolas, no entanto. Era o filho de um pequeno número de grandes mentes, talvez um que viveu entre os cananeus a trabalhar nas minas de turquesa do Sinai. Hieróglifos egípcios, entretanto, tornaram esta invenção possível. Através da invenção do alfabeto, antigos hieróglifos egípcios vivem em nosso próprio alfabeto até hoje.

Gostaria de agradecer aos professores Joseph Naveh e Benjamin Sass, ambos os quais contribuíram muito para minha compreensão de diversos aspectos da epigrafia antiga tratada neste artigo. Graças também ao Dan Elharrar da Universidade Hebraica, de sua valiosa assistência técnica na preparação de imagens para este artigo.

terça-feira, maio 04, 2010

Como hieróglifos se tornaram alfabeto - Parte I

By Orly Goldwasser
Para os asiáticos, como eram chamados, o exuberante Delta do Nilo, com seus pântanos abertos rico em peixes e aves, foi um verdadeiro jardim do Éden. Desde os primeiros tempos, cananeus e outros asiáticos viriam morar aqui. Na verdade, esse é o pano de fundo a história bíblica da fome em Canaã que levou à descida de Jacó para o Egito (Gênesis 46:1-7). Até o início do Império Médio (alguns anos depois de 2000 aC), a pressão dos imigrantes no Delta oriental era tão forte que as autoridades egípcias construiram uma série de fortalezas em pontos estratégicos para "repelir os asiáticos", como a história de Sinuhe nos diz1. Um século mais tarde, porém, a política egípcia para os asiáticos mudou. Em vez de tentar impedi-los de entrar, os egípcios cultivaram relações estreitas com o forte da cidade-estado cananéia na costa do Mediterrâneo e permitiu selecionar populações asiáticas de se estabelecer no Delta oriental. O último dos grandes faraós da dinastia XII, Amenemhat III (c. 1853-1808 aC) e Amenemhat IV (c. 1808-1799 aC), até estabelecer uma nova cidade para eles.


A Dinastia XII foi seguido pela mais fraca, a XIII Dinastia. Milhares de imigrantes da Síria, Líbano e Canaã, em seguida, invadiram o Delta oriental, criando uma grande colonia dos cananeus que se tornaria Avaris (moderna Tell el-Daba), a capital dos famosos hicsos. Os hicsos eram cananeus, que tomaram poder dos faraós egípcios e governaram todo o Egito por mais de cem anos (c. 1638-1530 aC).

Mas antes disso, no final da Dinastia XII durante o reinado de Amenemhat III e IV Amenemhat, o Egipto estava no auge de seu poder. Um comércio animado foi realizado com Núbia, ao sul. Importações do Levante entraram no Egito por terra e mar. Ouro e pedras preciosas foram extraídas no deserto oriental. E uma empresa de grande escala foi realizado regularmente para procurar turquesa nas altas montanhas do sul do Sinai, em um local chamado hoje el-Serabit Khadem. Nesta montanha no fundo do deserto do Sinai, presa aos ventos impiedosos e calor abrasador, estão os restos de um antigo templo egípcio à deusa Hathor, "A Senhora da Turquesa." Fundada por Sesostris I, o segundo rei da dinastia XII ( c. 1953-1908 aC), o templo continuou a existir, com algumas interrupções, até o final do Novo Reino, por cerca de 800 anos. Com base no trabalho de Sesostris I, os faraós Amenemhat III e IV Amenemhat exploraram as ricas minas de turquesa de Serabit. A pedra preciosa azul era muito procurada, item de luxo depois nos círculos reais. Nada menos que 28 expedições às minas de turquesa Serabit são registradas durante o reinado de Amenemhat III sozinho.


Para garantir a bênção dos deuses, o templo anterior foi dramaticamente aumentado por Amenemhat III e IV Amenemhat. Santuários e numerosas estelas comemorativas com inscrições hieroglíficas foram erguidos no caminho que leva ao templo, especialmente em homenagem a Hathor, a deusa da turquesa.De onde é que todas as pessoas que gravaram essas inscrições vem? A maioria era provavelmente do Delta. As expedições à mina de turquesa em Serabit reuniu altos funcionários, os escribas, sacerdotes, arquitetos, médicos, mágicos, encantadores de escorpião, os intérpretes, os líderes da caravana, os motoristas de burro, os mineiros, os construtores, soldados e marinheiros.


Muitos membros das expedições deixaram inscrições no recinto do templo. Alguns contêm apenas um nome ou um desenho. Todos pediram a bênção dos deuses para o sucesso em suas perigosas empreitadas, bem como para uma viagem segura para casa. Esses registros também nos dá contas de quantas centenas de mineiros e trabalhadores de pedra, eram ativos durante as estações de mineração, bem como aqueles que estavam envolvidos nos projetos de construção do templo. Foram estes mineiros e operários egípcios? Cananeus? Ou ambos?


A sociedade egípcia nesta época era relativamente tolerante com os estrangeiros que foram rapidamente aceitos e integrados na sociedade egípcia, contanto que eles não fossem inimigos políticos do Estado. Alguns altos funcionários que deixaram inscrições no templo Serabit se apresentam como egípcios, mas também mencionam sua origem asiática ou uma mãe asiática. Apesar dessa ascendência, eles se consideram egípcios. Só asiáticos que vieram de fora do Egito são identificados como tal. Cananeus do Egito que chegaram com as expedições egípcias ao Delta não foram diferenciados nas inscrições, pois são simplesmente considerados como os egípcios.

As listas de expedição a Serabit contém também os nomes de muitos dos "intérpretes". A presença destes dragomanos dá fortes indícios de que alguma barreira da língua deve ter existido. As centenas de burros registrados que serviram como animais de carga, provavelmente dirigido por especialistas na caravana asiática, seriam capazes de transferir turquesa direto de volta para o Egito. E, sem dúvida, soldados asiáticos em serviço egípcio acompanharam essas caravanas. A linha inferior: Havia certamente muito mais cananeus em Serabit do que os que estão listados nas inscrições hieroglíficas no sitío.

Uma nota final: Em nenhum lugar, dentre as muitas inscrições no local, há uma menção de escravos. Cananeus, sim, escravos, não.Foi aqui em Serabit, eu acredito, que o alfabeto foi inventado por cananeus!

A invenção do alfabeto introduziu o que foi provavelmente a mais profunda revolução da mídia na história. Sistemas anteriores de escrita, como hieróglifos do Egito e a escrita cuneiforme da Mesopotâmia, com a seus curiosos personagens em forma de cunha, cada um exigiu um conhecimento de centenas de sinais. Para escrever ou até mesmo ler um texto cuneiforme ou hieroglífico era necessária familiaridade com estes sinais e regras complexas que regem a sua utilização.

Em contraste, um sistema de escrita alfabética usa menos de 30 sinais, e as pessoas precisam de apenas algumas, relativamente simples, leituras das regras que associam esses sinais com os sons.

Esta grande invenção teve profundas implicações sociais e culturais. Com o alfabeto, a escrita saiu da "gaiola de ouro" do mundo profissional dos escribas. Escrever não era mais seu monopólio. Quando muitos outros membros da sociedade pudessem aprender a ler (e escrever), o acesso à informação e ao conhecimento já não era tão limitado como tinha sido. A escrita alfabética acabou por dar muito mais controle sobre a vida das pessoas e permitiu que os segmentos maiores da população assumissem um papel mais ativo nos assuntos administrativo e cultural de suas respectivas sociedades. Mas como isso foi feito?

Embora, como acredito, o alfabeto foi inventado pelos cananeus, ainda há uma dívida significativa com os egípcios, pois foram os hieróglifos egípcios que forneceram o gatilho e os meios que tornaram a invenção do alfabeto possível.

Para entender como isso aconteceu, é preciso primeiro analisar algumas inscrições muito estranhas de Serabit, apenas uma dúzia que diferem marcadamente das centenas de inscrições hieroglíficas no sitío. O crédito por perceber a primeira dessas inscrições incomuns em Serabit vai para Hilda Petrie, esposa do famoso egiptólogo Sir William Matthew Flinders Petrie, que estava conduzindo uma expedição arqueológica para Serabit em 1905. Foi ela quem chamou a atenção para algumas pedras caídas no chão de uma das minas, tendo vários sinais estranhos que não pareciam ser hieróglifos reais. Em seguida, várias dessas inscrições foram encontradas em rochas nas minas de turquesa, e mesmo bem no interior das minas. Alguns foram conduzidas ao templo pelas estradas do deserto. Apesar disso, no templo propriamente dito haviam apenas duas pequenas estátuas e uma esfinge com essas inscrições novas e estranhas.


Petrie estudou essas inscrições brutas e observou que pareciam uma espécie de imitação dos sinais hieroglíficos. No entanto, o repertório de sinais era muito pequeno. Petrie engenhosamente identificou esses sinais inábeis como uma escrita alfabética, diferente do sistema hieroglífico com suas centenas de sinais. No entanto, Petrie foi incapaz de ler estas estranhas inscrições.

Em 1916, cerca de dez anos depois, Sir Alan Gardiner, o famoso egiptólogo inglês, observeu um grupo de quatro sinais que foram freqüentemente repetidos nestas inscrições incomuns. Gardiner identificou corretamente o grupo repetitivo de sinais como uma série de quatro letras de uma escrita alfabética, que representou uma palavra em uma língua cananéia: b-‘-l-t, vocalizado como Baalat, "A Mestra”. Gardiner sugeriu que era o título cananeu de Hathor, a deusa das minas de turquesa. Eram estas as inscrições esculpidas pelos trabalhadores cananeus?

Uma chave importante para se decifrar a palavra foi uma inscrição única bilíngue. Ela está inscrita em uma pequena esfinge do templo. A inscrição hieroglífica da esfinge diz: "O amado de Hathor, a dona de turquesa”.



Cada uma das letras críticas na palavra Baalat é uma imagem - uma casa, um olho, uma aguilhada de bois e uma cruz.