quarta-feira, janeiro 19, 2011

Uma triagem arqueológica para restaurar a Babilônia


Ter, 18 Jan, 03h35
Os danos causados às ruínas da antiga Babilônia são visíveis de uma pequena colina próxima à Torre de Babel, cuja importância bíblica passa despercebida frente ao que restou dela.
Ao longo do horizonte, há torres de guarda, arames farpados e barreiras cheias de lixo entre as palmeiras; terras invadidas e casas de concreto dessa e de outras vilas; e o enorme palácio que Saddam Hussein construiu na década de 1980, no topo da cidade que Nabucodonosor II governou.
Algo mais também é visível: montes de terra, ocultando tudo o que resta para ser descoberto numa cidade que o profeta Jeremias chamou de "uma taça de ouro nas mãos do Senhor, uma taça que deixou toda a terra embriagada".
Numa de suas muitas visitas às ruínas, Jeff Allen, conservacionista trabalhando com o Fundo de Monumentos Mundiais, disse: "Nada disso foi escavado. Existe um enorme potencial nesse lugar. É possível escavar o plano de ruas da cidade inteira". Isso certamente levará anos para acontecer, dada a realidade do Iraque de hoje.
Mas, pela primeira vez desde a invasão dos EUA em 2003, após anos de descaso e violência, arqueólogos e preservacionistas voltaram a trabalhar na proteção e restauração de partes da Babilônia e outras ruínas antigas da Mesopotâmia.
Há novos locais sendo escavados pela primeira vez, a maioria em segredo, para evitar atrair a atenção de saqueadores _ que continuam sendo um problema por aqui.
O Fundo de Monumentos Mundiais, em conjunto com a Comissão Estadual de Antiguidades e Patrimônio do Iraque, delineou um plano de conservação para combater qualquer deterioração adicional das ruínas da Babilônia e reverter alguns dos efeitos do tempo _ e das recriações propagandísticas e arqueologicamente incorretas de Hussein.
Em novembro, o Departamento de Estado anunciou uma nova concessão, de US$2 milhões, para iniciar a preservação das ruínas mais impressionantes. Elas incluem a fundação da Porta de Ishtar, construída no século VI a.C. pelo pai de Nabucodonosor, Nabopolasar, e adornada com baixo-relevos dos deuses babilônicos Marduk e Adad (a famosa porta azul esmaltada, encomendada por Nabucodonosor, foi encontrada no início do século XX e reconstruída no Museu Pergamon, em Berlim).
O objetivo é preparar o local e outras ruínas _ abrangendo de Ur, no sul, a Nimrud, no norte _ para uma eventual inundação de cientistas, acadêmicos e turistas.
A esperança das autoridades é que isso possa contribuir com o renascimento econômico do Iraque tanto quanto o petróleo.
O projeto para a Babilônia é, de longe, o maior e mais ambicioso do Iraque, um reflexo da fama dessa cidade antiga e sua ressonância no patrimônio político e cultural do Iraque moderno. "Este é um dos maiores projetos que temos, e é apenas o primeiro", afirmou Qais Hussein Rashid, diretor da Comissão Estadual de Antiguidades e Patrimônio, numa entrevista em Bagdá. "Queremos usá-lo como modelo para todos os outros locais". A tarefa é assustadora, contudo, e as ameaças ao local são muitas.
No caso das reconstruções da era de Hussein, algumas são irreversíveis. A invasão americana e a carnificina que a seguiu causaram a interrupção dos trabalhos arqueológicos e preservacionistas, deixando as ruínas à mercê do tempo e de saqueadores. O exército dos EUA transformou a Babilônia numa base militar. Mais tarde, ela foi ocupada por tropas polonesas e, mesmo tendo sido devolvida ao controle da Comissão Estadual de Antiguidades e Patrimônio em 2004, as marcas da ocupação militar ainda podem ser vistas no local.
O Fundo de Monumentos Mundiais tem realizado triagens arqueológicas desde o início de seu plano de conservação, em 2009. Eles criaram escâneres computadorizados para gerar registros precisos dos danos às ruínas e identificaram as piores ameaças, começando pela erosão causada pelos lençóis subterrâneos de água salgada.
"O que precisamos fazer é criar um ambiente estável", disse Allen em novembro. "Hoje, o local está a caminho da destruição completa".
A ação da água subterrânea sobre os tijolos de terra, agravada por uma passarela moderna de concreto e pelas escavações do arqueólogo alemão Robert Koldewey, há mais de um século, já destruiu alguns dos baixo-relevos de 2.500 anos da base da Porta de Ishtar.
"Eles cuidaram da Porta de Ishtar somente no interior, devido às visitas de líderes e autoridades", disse Mahmoud Bendakir, arquiteto que trabalha com o fundo, referindo-se aos responsáveis pelo local durante a era Hussein. "A parte de fora era um desastre".
O financiamento dos Estados Unidos pagará pela canalização da água para longe da fundação da porta, que avança diversos metros por baixo da área ao redor. Reparos similares estão planejados para dois templos da Babilônia, Ninmakh e Nabu-sha-Khare, os conjuntos mais completos de ruínas _ embora também tenham sofrido com a erosão e as restaurações nocivas com tijolos modernos. "É difícil dizer o que atrapalha mais", disse Allen, "mas a soma dos dois é quase tóxica para a preservação de monumentos".
A equipe americana de reconstrução reformou um museu moderno no local, além de um modelo da Porta de Ishtar que, durante décadas, serviu como entrada para visitantes. Dentro do museu, está uma das relíquias mais valiosas do sítio: um baixo-relevo esmaltado de um leão, um dos 120 que se alinhavam na entrada da cidade. O museu, com três galerias, está programado para inaugurar em janeiro, recebendo seus primeiros visitantes desde 2003.
Com um novo sistema de segurança instalado, já se pensa em trazer de volta artefatos babilônicos do Museu Nacional, em Bagdá. O destino da Babilônia já está sendo discutido entre líderes iraquianos, com responsáveis por antiguidades confrontando autoridades locais sobre quando abrir para visitantes, e como explorar o local para um turismo que, basicamente, permanece mais um objetivo do que uma realidade. Há discussões até mesmo sobre o valor da entrada, se ele deveria ir à comissão de antiguidades ou ao governo local.
Mais uma terrível ameaça ao local é o desenvolvimento urbano que ocorreu no interior dos muros da cidade antiga, somando quase oito quilômetros quadrados. O projeto do fundo traçou os velhos muros num mapa, causando agitação entre os iraquianos que atualmente vivem na região.
Eles temem que a preservação das ruínas da Babilônia os expulse de suas casas e terras, como Hussein expulsou os moradores de uma vila local para construir seu palácio. "Eles tiraram aquelas pessoas de suas propriedades", disse Minshed al-Mamuri, que administra uma organização cívica local para viúvas e órfãos. "Isso é algo psicológico para eles".
Allen, que supervisiona o trabalho do fundo, afirmou que a preservação da Babilônia precisaria da colaboração entre eleitorados concorrentes, algo extremamente raro em meio à instabilidade política do Iraque. "Não estamos olhando apenas para a arqueologia", disse ele, sobre o projeto. "Estamos vendo as oportunidades e a viabilidade para a população local. Eles precisam ver algo ser feito com este local. É possível fazer isso e ao mesmo tempo preservar a integridade do sítio arqueológico".