Blog do Pr. Luciano Costa

Blog do Pr. Luciano Costa - A verdade a tudo vence!

quinta-feira, março 19, 2015

O mínimo que se deve fazer para uma interpretação bíblica coerente

Alguns amigos têm perguntado a respeito de meus procedimentos na interpretação de textos bíblicos. Segue abaixo um breve resumo de como trato o texto sagrado, que tem como objetivo chegar o mais próximo possível da verdadeira intenção do autor. 

Para uma interpretação bíblica mais coerente, sempre tentei contextualizar o texto/livro/perícope que será analisada. Inicialmente busco fazer uma tradução do texto original, criando um glossário para uma compreensão mais aprofundada do sentido das palavras, comparando algumas versões do texto para o português que considero relevantes. Na sequência procuro verificar o sitz im leben (pano de fundo, cenário, etc), levantando questões sócio-culturais importantes para os fatos narrados no texto e quais suas projeções ali. Tento, na medida do possível, inclusive, classificar o texto entre descritivo e prescritivo, procurando reconhecer o tipo de construção redacional (poético, histórico, mítico, etc), que possam provocar uma leitura mais apropriada para cada um.

Como regra básica, sempre compreendi que é importante não tentar decifrar o indecifrável, numa luta para adivinhar o que o autor do texto quis dizer além do que está escrito. Sempre tomando a interpretação mais óbvia como a correta e buscando sempre verificar a opinião de estudiosos renomados sobre o assunto, para efeitos de comparação. Conforme W. D. Chamberlain, "para interpretar contextualmente, há de se levar em conta o conteúdo geral de todo o documento, se ele é um discurso unificado. Então, o matiz de pensamento que circunscreve a passagem, pois que mui freqüentemente afeta ele o sentido dos termos a interpretar-se". Em algumas ocasiões, como por exemplo na interpretação de uma epístola, o seu "teor geral dita o sentido real da passagem". Sem esquecer também que a interpretação deve levar em conta a estrutura textual, verificando seu contexto imediato e seu contexto remoto.

Com isso creio estar suficientemente munido de informações para deduzir a intenção do autor em seu momento histórico, na transmissão daquilo que ele foi incumbido de fazer, interpretando o texto de forma contextual.

Algo de suma importância na interpretação de textos, consiste em envidar o maior esforço possível para uma leitura imparcial, livre de seus "pré-conceitos" adquiridos no contexto de sua própria cosmovisão. Não creio que qualquer indivíduo seja capaz de livrar-se totalmente de toda carga cultural absorvida em sua vivência, mas, acredito que, de posse das informações a respeito do texto e de seu contexto histórico, seja possível chegar bem próximo de poder enxergar o texto com os olhos do autor.

segunda-feira, março 09, 2015

Teologia e ação social

A Igreja de Cristo hoje é um exemplo do que ela não deve ser. Sua negligência diante da sociedade e da injustiça em nosso país e no mundo, preferindo ficar inerte entre as quatro paredes do templo discutindo temas bíblicos e, num comportamento escapista, insistindo na fé cristã como uma simples norma de conduta pessoal espiritualizada, — pois ignora aspectos econômicos, políticos e sociais e seus efeitos na desigualdade e na ampliação da miséria, — é contraproducente e está longe de ser condizente com os ensinamentos de Jesus. 

Para a promoção do envolvimento da Igreja em questões sociais, seriam necessárias atividades que não lhe são peculiares, mas, que fomentariam o conhecimento da realidade concreta em que as instituições cristãs deveriam se engajar. São atividades, debates e eventos públicos que tratem de todas as dimensões da sociedade onde temas relevantes para o cotidiano pudessem ser tratados e alinhados com uma conduta cristã adequada com relação a seu semelhante e com o meio-ambiente, tais como: Violência doméstica, exploração sexual e exploração sexual infantil, trabalho escravo, pobreza e desigualdade social, desmatamento e destruição das florestas brasileiras, água (desperdício e poluição), grilagem de terras, etc. 

Essa perspectiva de ação não é nova, é disso que se trata a “Missão Integral da Igreja”, que entre discussões e controvérsias que vêm desde 1974, em Lausanne, tem se preocupado com o envolvimento da Igreja em questões sociais concretas para o benefício da coletividade e não do indivíduo materialista pós-moderno. Assim como Cristo fez na sociedade em que viveu, envolvendo-se em todos os aspectos possíveis da vida daqueles com quem se encontrava. Fazendo-nos entender que, assim como em sua vida todos os eventos em que ele estava envolvido ocorria uma ação transformadora, a Igreja também pode ser agente de transformação do mundo sob sua orientação. Para a Igreja, nesse caso, ocupar-se com questões sociais é integrar o ministério de Jesus em relação à sua própria missão para com o próximo, agindo e ensinando a comunidade o caminho que devem seguir.

Assim como Jesus, a Igreja deve ser movida por compaixão pelos oprimidos, pelos marginalizados, pelo amor a justiça e a verdade. Como afirma o Pr. Ed René Kivitz: “A convocação da missão integral, enfim, envolve uma rendição completa ao senhorio de Jesus Cristo, para perdão dos pecados e recebimento do dom do Espírito Santo, a partir do que se passa a integrar um corpo, o corpo de Cristo, ambiente para a experimentação coletiva dos benefícios da cruz. É este corpo o responsável por transbordar tais benefícios ao mundo, como anúncio profético do novo céu e da nova terra. O caminho missiológico e pastoral da missão integral é afetivo – relacional, em detrimento de metodológico –; operacional; comunitário, em detrimento de institucional; devocional, em detrimento de gerencial”.

Se a Igreja passar a ter uma visão holística de seu ambiente, se tornará uma poderosa agente de transformação de fato, cumprindo com louvor o imperativo de Cristo para a salvação dos perdidos, para o crescimento do Reino e para a glória de Deus. Mas, para isso, precisa superar grandes desafios que impedem a sua unificação em torno desse mesmo objetivo.

O que penso sobre Espiritualidade Cristã

Muitas coisas são ditas sobre "espiritualidade", mas, poucas realmente tratam do assunto com honestidade. Principalmente num país como o Brasil, onde tratamos experiências de fé questionáveis por um viés místico e milagreiro. Em minha opinião, se é que servirá para alguma coisa, não acredito em "novos modelos" ou novas ideologias a respeito do tema, acredito que a idéia mais prática e simples seja também a mais próxima do acerto.

Não vejo a espiritualidade como algum tipo de relação metafísica com várias dimensões do universo, mas, como um relacionamento natural entre criador e criatura onde os que nele crêem a manifestam “conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um”.

Uma vez instruído pelas Escrituras a respeito de condutas para com Deus e seu próximo, o cristão deve buscar maturidade no que tange a realização prática daquilo que se afirma crer, assumindo todas as responsabilidades com a humanidade e seu meio-ambiente, bem como com os demais seres vivos desse nosso universo.

À medida que avançamos com mais naturalidade na vivência de nossa fé, creio eu, estaremos mais “cheios” do pneuma divino, seremos, como afirma Paulo, “espirituais” (I Co 3.1) e não mais carismáticos.

Tal maturidade é, para mim, espiritualidade. E esse crescimento espiritual que deve gerar no homem o desejo de uma vida comunitária, solidária e fraterna, sem o abandono ou negação da individualidade. 

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Histórias de Natal no Cristianismo Apócrifo

O nascimento de Jesus nos evangelhos apócrifos

Tony Burke • 10.12.2014
Fonte: Biblical Archaelology Society



O Presépio (presépio) é um ofício secular e uma das tradições mais conhecidas de Nápoles. Este presépio napolitano foi exibido em Roma. Foto: Howard Hudson / Wikimedia Commons.

Uma das imagens mais conhecidas da época de Natal é o Presépio – uma conhecida representação feita em uma variedade de locais públicos e privados, incluindo igrejas, parques e vitrines de lojas, exibindo o nascimento de Jesus. A cena, primeiro montado por São Francisco de Assis em 1223, é iconográfica, ou seja, seus vários elementos destinam-se principalmente a retratar uma verdade teológica – nem tanto histórica, nem mesmo literária. Harmonizam-se duas histórias muito distintas: o nascimento de Jesus em um estábulo, descrito por Lucas, visitada por pastores, com a participação de um exército angelical e a descrição de Mateus, onde os magos são guiados por uma estrela para a casa da família de Jesus em algum momento antes de seu segundo aniversário.

Para a maioria das pessoas que visitam o presépio, aquele é o retrato exato de como o nascimento de Jesus aconteceu, com animais de fazenda, pastores, anjos e magos lotando o estábulo de Belém. Mas essa combinação é apócrifa, no sentido amplo que a cena completa não é um reflexo preciso do que os textos bíblicos dizem sobre o nascimento de Jesus e no sentido estrito em que essa harmonização entre Mateus e Lucas é uma característica comum de evangelhos não-canônicos da infância cristã . Na verdade, não é retratado somente o que dizem os evangelhos, numa combinação das histórias bíblicas, há também adições das tradições sobre o nascimento de Jesus que as complementam, que circularam na antiguidade. É claro que a maioria dos cristãos ao longo da história não tinham conhecimento dessa distinção; antes da alfabetização generalizada, os cristãos contavam a história do nascimento de Jesus sem a consciência de que alguns elementos foram baseadas nas Escrituras e que outros não foram.

Os apócrifos cristãos são ricos em contos do nascimento de Jesus. A mais antiga e mais conhecida delas são as histórias encontradas no Protevangelium (ou "Proto-Evangelho") de Tiago. Composta no final do segundo século, este texto combina as narrativas da infância de Mateus e Lucas com outras tradições, incluindo histórias do próprio nascimento e educação da virgem Maria. O Protevangelium foi excepcionalmente popular, de tal forma que centenas de manuscritos do texto existem hoje em uma variedade de línguas, influenciando profundamente a liturgia cristã e os ensinamentos sobre Maria. O Protevangelium foi transmitido no Ocidente como parte do Evangelho de um Pseudo-Mateus, adicionando a ele contos de permanência da Sagrada Família no Egito e, em alguns manuscritos, histórias da infância de Jesus tiradas do Evangelho da Infância de Tomé. Outros manuscritos do Pseudo-Mateus incorporararam uma narrativa diferente do nascimento de Jesus, a partir de um evangelho perdido que os estudiosos chamam de O Livro sobre o nascimento do Salvador. No Oriente, o Protevangelium foi traduzido para o siríaco e expandido com um conjunto diferente de histórias ambientadas no Egito para formar a vida da “Santíssima Virgem Maria”, que mais tarde foi traduzido para o árabe como o Evangelho da Infância. Outra reformulação siríaca do Protevangelium está por trás do Evangelho da Infância Armênio. Os cristãos do Oriente também expandiram as tradições dos magos citados em Mateus criando a Revelação dos Magos, a Lenda dos Afroditianos, e Na Estrela (erroneamente atribuída a Eusébio de Cesaréia), cada qual à sua maneira, narra como os magos tornaram-se cientes de que a estrela anunciava o nascimento de um rei.

Este pequeno pintura tripartite, The Nativity com os profetas Isaías e Ezequiel, faz parte de um retábulo maciço conhecido como o Maestà. Composta de muitas pinturas individuais, o Maestà foi encomendado pela cidade italiana de Siena em 1308 a partir do artista Duccio di Buoninsegna. Ele contém elementos do nascimento de Jesus a partir do cristianismo apócrifo, incluindo a caverna, o boi, o burro e a parteira. Foto: Cortesia National Gallery of Art, Washington.

Se os leitores desses textos apócrifos pudessem ver os presépios modernos, eles se surpreenderiam ao descobrir que o bebê Jesus está em um estábulo: Nos evangelhos da infância, o nascimento ocorre em uma caverna fora de Belém, no mesmo local dado também por Justino Mártir (em seu Diálogo com Trifon 78), que morreu por volta de 165 dC. Eles poderiam ter esperado também para ver uma parteira na cena; de fato, ela não aparece regularmente em representações ortodoxas orientais da natividade, ajudando Maria a dar banho no recém-nascido. Como o Protevangelium afirma, José deixou Maria na gruta e foi para Belém em busca de uma parteira. Mas, quando José e a parteira se aproximaram da caverna, viram uma nuvem luminosa cercá-los. A nuvem, em seguida, desapareceu na caverna e uma grande luz apareceu revelando o bebê Jesus. Cada uma das expansões posteriores do Protevangelium narra esta cena de sua própria maneira original, mas todo o esforço é mantido para mostrar que Jesus não nasceu de uma maneira natural, permitindo assim que Maria se mantivesse fisicamente virgem após seu nascimento. Então, o ser sobrenatural é Jesus que, em alguns textos, teria sido relatado como alguém que poderia ter nacido de várias maneiras. O Evangelho da Infância Armênio, por exemplo, relata que os magos o viam, cada um, de uma forma diferente: como o Filho de Deus em um trono, como o Filho do Homem cercado por exércitos, e como um homem torturado, morto e ressuscitado.

As contos apócrifos concordam com Lucas que os pastores visitaram a Sagrada Família logo após o nascimento de Jesus. Nos textos ocidentais, a família, em seguida, move-se a partir da caverna para um estábulo e coloca o bebê em uma manjedoura. Há um boi e um burro sobre seus joelhos a adorá-lo, cumprindo a profecia de Isaías 1: 3, "O boi conhece possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono" (veja Pseudo-Mateus 14 e Nascimento do Salvador 86). Embora um enfeite apócrifo, os animais se tornaram um ingrediente comum em representações posteriores da natividade e podem ser observados em presépios hoje.

Na maioria das vezes, a caverna continua a ser o palco de eventos subsequentes, incluindo o da circuncisão (de Lucas 2:21) e a visita dos Reis Magos. Os Reis Magos são normalmente representados na arte e iconografia como três reis persas ricamente adornados. No entanto, Mateus chama-os apenas de "Magos do Oriente" (Mateus 2: 1) e não diz quantos eram. Os autores dos textos apócrifos fizeram o seu melhor para esclarecer essas questões. No Apocalipse dos Reis Magos, há pelo menos doze magos, mesmo número é dado em outras tradições siriacas, e que chegaram a Belém em abril (não de Dezembro) de uma terra no Extremo Oriente chamado "Shir," talvez possa ser entendido como “China”. O Evangelho da Infância Armênio diz que havia três reis, e eles foram acompanhados por 12 comandantes, cada um com um exército de 1.000 homens, o que deixariaum estábulo muito lotado, de fato. Muitos dos textos continuam a história dos Reis Magos e dizem o que aconteceu quando eles voltaram para seu país de origem: na vida da Santíssima Virgem (=Evangelho da Infância Árabe) eles trazem de volta um dos cueiros de Jesus, que eles adoram porque tem propriedades milagrosas; no Apocalipse dos Magos eles compartilham a comida de induz uma visão (uma espécie de cogumelos mágicos?) que lhes são dadas pela estrela; e no Lenda dos Afroditianos eles retornam com uma pintura de Jesus e sua mãe. Nenhuma destas tradições apócrifas sobre os magos são destaque em presépios hoje, mas alguns deles influencioram a arte medieval e literatura.

Cristãos de todas as épocas e lugares têm prazer na história do nascimento de Jesus, tanto que eles têm ansiado para saber mais sobre o primeiro Natal do que é encontrado nos relatos bíblicos. A cena da natividade do Natal é o resultado dos esforços de escritores criativos e piedosos para preencher lacunas deixadas por Mateus e Lucas e combinam múltiplas tradições, bíblicas e não-bíblicas, em uma imagem duradoura. O presépio é uma representação intemporal de quando Deus se fez homem; ele também é uma prova de imaginação humana e da arte de contar histórias.

segunda-feira, julho 07, 2014

A Bíblia "Original" e os Manuscritos do Mar Morto

Podem os pergaminhos do Mar Morto ajudar a expor o texto da Bíbliaoriginal” dentro do Texto Massorético e da Septuaginta?

Durante séculos, os estudiosos da Bíblia examinaram dois textos antigos para elucidar a língua original da Bíblia: o Texto Massorético e a Septuaginta. O Texto Massorético é um texto tradicional hebraico finalizado por estudiosos judeus por volta de 1000 dC. A Septuaginta é uma tradução grega da Torá criado pelos judeus de Alexandria, no século III aC (Os outros livros da Bíblia hebraica foram traduzidos ao longo do século seguinte). De acordo com a tradição acerca da Septuaginta, pelo menos 70 antigos estudiosos estavam isolados para fazer uma tradução exata da Torá para o grego.

Qual é a Bíblia "original"? Como é que vamos decidir qual desses dois textos antigos é mais autoritário? Em
Searching for the ‘Original’ Bible", edição de julho/agosto 2014 da Biblical Archaeology Review, em conjunto com a Universidade Hebraica de Jerusalém e o editor-chefe da equipe de publicação dos Manuscritos do Mar Morto, Emanuel Tov, estudioso de longa data, sugere que nos voltemos para o Manuscritos do Mar Morto para nos ajudar a comparar o Texto Massorético e a Septuaginta.

Alguns dos Manuscritos do Mar Morto, na verdade, têm mais em comum com a Septuaginta grega do que o tradicional texto hebraico massorético, mostrando que os tradutores gregos utilizaram textos hebraicos que se assemelhavam aos Manuscritos do Mar Morto. Os textos dos Rolos do Mar Morto seriam tão confiáveis quanto essas outras duas fontes? Eles são o mais próximo do texto original da Bíblia?
 
“Alguns se voltam para os Manuscritos do Mar Morto, simplesmente porque eles são mais antigos: textos com 2.000 anos de idade eram menos sujeitos à corrupção dos escribas, o que implica que eles refletem uma linguagem Bíblia mais original”. Tov complementa esse raciocínio cronológico com uma abordagem lógica – e assumidamente subjetiva – quando, em sua análise, ele afirma queo texto faz mais sentido em um determinado contexto”. Tov examina uma série de discrepâncias textuais entre versões da Bíblia, em sua pesquisa pela versão original (Será que Deus terminou se trabalho no sexto ou no sétimo dia, antes de descansar de fato no sétimo? Como as nações foram divididas de acordo com o número de filhos de Deus?).

Como exemplo, Tov pergunta:Será que Ana levou a Siló um ou três touros como uma oferenda?” (1 Samuel 1:24)
  
"Quando o bebê Samuel foi desmamado e sua mãe, Ana, finalmente chegou a Siló com seu filho, ela também trouxe com ela uma oferta para o Senhor que é descrito de duas maneiras em nossas fontes textuais. De acordo com o Texto Massorético, ela trouxe 'três touros', mas de acordo com a Septuaginta e um pergaminho Qumran (4QSama 50-25 aC) trouxe um 'touro de três anos de idade'.

Acredito que Ana provavelmente ofereceu apenas um único touro (como na Septuaginta e 4QSama);  o verso seguinte apóia esta interpretação ao falor sobre o touro’. Eu acredito que o Texto Massorético foi textualmente corrompido, pois, a escrita era contínua (sem espaços entre as palavras) e no original as palavras eram literalmente prm/shlshh (literalmente: ‘touros três‘) na Septuaginta foi dividido de forma errada para pr/mshlsh (‘três anos de idade touro’)*.

Essa é a evidência de que a Septuaginta, por ser em grego, sempre dependerá de uma reconstrução em hebraico, e, conseqüentemente, o pergaminho Qumran aqui nos ajudará a decidir entre as várias opções. Aliás uma oferta de um ‘três anos de idade touro’ é mencionado em Gênesis 15:09. Isso mostra que um texto hebraico subjacente à Septuaginta existiu uma vez em que Ana trouxe apenas um touro de três anos de idade. "

Tov usa os Manuscritos do Mar Morto para elucidar a língua original da Bíblia, não só porque eles são os mais antigos manuscritos bíblicos, mas também porque eles fornecem pistas lógicas adicionais. Ele conclui: "Ao encontrar nosso caminho no labirinto de fontes textuais da Bíblia, devemos acumular lentamente experiência e intuição. Ao manobrar entre as fontes, vamos encontrar muita ajuda nos Manuscritos do Mar Morto. Mas eles devem ser utilizados criteriosamente".



quinta-feira, maio 24, 2012

Arqueólogos encontram primeira prova da existência da Belém bíblica


EFE – 22 horas atrás

Argila com a inscrição ‘Bat Lechem’ foi encontrada nas escavações do ‘Projeto Cidade de David’ (Foto: AFP)

Arqueólogos israelenses acharam em Jerusalém um selo de argila com a inscrição "Bat Lechem", que supõe a primeira evidência arqueológica da existência de Belém durante o período em que aparece descrito na Bíblia, informou nesta quarta-feira a Autoridade de Antiguidades de Israel.

Trata-se de uma espécie de esfera de argila que se usava para carimbar documentos e objetos, que foi encontrado nas polêmicas escavações do "Projeto Cidade de David", situado no povoado palestino de Silwán, no território ocupado de Jerusalém Oriental.

Datada entre os séculos VII e VIII a.C, a peça é meio milênio posterior às Cartas de Amarna, uma correspondência diplomática em língua acádia sobre tabuletas de argila entre a Administração do Egito faraônico e os grandes reinos da época e seus vassalos na zona.

O descobrimento anunciado nesta quarta remete a uma época posterior, a do Primeiro Templo Judeu (1006 - 586 a.C.), citada no Antigo Testamento como parte do reino da Judéia.

"É a primeira vez que o nome de Belém aparece fora da Bíblia em uma inscrição do período do Primeiro Templo, o que prova que Belém era uma cidade no reino da Judéia e possivelmente também em períodos anteriores", assinalou o responsável das escavações, Eli Shukron, em comunicado.

"A peça é do grupo dos 'fiscais', ou seja, uma espécie de selo administrativo que era usado para carimbar cargas de impostos que se enviavam ao sistema fiscal do reino da Judéia no final dos séculos VII e VIII a.C", acrescenta a especialista. EFE

terça-feira, janeiro 24, 2012

Pregando a Cristo

R. C. Sproul

A igreja do século XXI enfrenta muitas crises. Uma das mais sérias é a crise de pregação. Filosofias de pregação amplamente diversas competem por aceitação no clero contemporâneo. Alguns veem o sermão como um discurso informal; outros, como um estímulo para saúde psicológica; outros, como um comentário sobre política contemporânea. Mas alguns ainda veem a exposição da Escritura Sagrada como um ingrediente necessário ao ofício de pregar.

À luz desses pontos de vista, sempre é proveitoso ir ao Novo Testamento para procurar ou determinar o método e a mensagem da pregação apostólica apresentados no relato bíblico.

Em primeira instância, temos de distinguir entre dois tipos de pregação. A primeira tem sido chamada kerygma; a segunda, didache. Esta distinção se refere à diferença entre proclamação (kerygma) e ensino ou instrução (didache).

Parece que a estratégia da igreja apostólica era ganhar convertidos por meio da proclamação do evangelho. Uma vez que as pessoas respondiam ao evangelho, eram batizadas e recebidas na igreja visível. Elas se colocavam sob uma exposição regular e sistemática do ensino do apóstolos, por meio de pregação regular (homilias) e em grupos específicos de instrução catequética.

Na evangelização inicial da comunidade gentílica, os apóstolos não entraram em grandes detalhes sobre a história redentora no Antigo Testamento. Tal conhecimento era pressuposto entre os ouvintes judeus, mas não era argumentado entre os gentios. No entanto, mesmo para os ouvintes judeus, a ênfase central da pregação evangelística estava no anúncio de que o Messias já viera e inaugurara o reino de Deus.

Se tomássemos tempo para examinar os sermões dos apóstolos registrados no livro de Atos dos Apóstolos, veríamos neles uma estrutura comum e familiar. Nesta análise, podemos discernir a kerygma apostólica, a proclamação básica do evangelho. Nesta kerygma, o foco da pregação era a pessoa e a obra de Jesus. O próprio evangelho era chamado o evangelho de Jesus Cristo. O evangelho é sobre Jesus. Envolve a proclamação e a declaração do que Cristo realizou em sua vida, em sua morte e em sua ressurreição. Depois de serem pregados os detalhes da morte, da ressurreição e da ascensão de Jesus para a direita do Pai, os apóstolos chamavam as pessoas a se convertem a Cristo - a se arrependerem de seus pecados e receberem a Cristo, pela fé.

Quando procuramos inferir destes exemplos como a igreja apostólica realizou a evangelização, temos de perguntar: o que é apropriado para transferirmos os princípios da pregação apostólica para a igreja contemporânea? Algumas igrejas acreditam que é imprescindível o pastor pregar o evangelho ou comunicar a kerygma em todo sermão que ele pregar. Essa opinião vê a ênfase da pregação no domingo de manhã como uma ênfase de evangelização, de proclamação do evangelho. Hoje, muitos pregadores dizem que estão pregando o evangelho com regularidade, quando em alguns casos nunca pregaram o evangelho, de modo algum. O que eles chamam de evangelho não é a mensagem a respeito da pessoa e da obra de Cristo e de como sua obra consumada e seus benefícios podem ser apropriados pela pessoa, por meio da fé. Em vez disso, o evangelho de Cristo é substituído por promessas terapêuticas de uma vida de propósitos ou de ter realização pessoal por vir a Cristo. Em mensagens como essas, o foco está em nós, e não em Jesus.
Por outro lado, examinando o padrão de adoração da igreja primitiva, vemos que a assembleia semanal dos santos envolvia reunirem-se para adoração, comunhão, oração, celebração da Ceia do Senhor e dedicação ao ensino dos apóstolos. Se estivéssemos lá, veríamos que a pregação apostólica abrangia toda a história redentora e os principais assuntos da revelação divina, não se restringindo apenas à kerygma evangelística.
Portanto, a kerygma é a proclamação essencial da vida, morte, ressurreição, ascensão e governo de Jesus Cristo, bem como uma chamada à conversão e ao arrependimento. É esta kerygma que o Novo Testamento indica ser o poder de Deus para a salvação (Rm 1.16). Não pode haver nenhum substituto aceitável para ela. Quando a igreja perde sua kerygma, ela perde sua identidade.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

A Confusão Evangélica Diante do Antigo Testamento


Luiz Sayão

A igreja evangélica brasileira é uma das mais dinâmicas e criativas do mundo. Por essa razão seu crescimento tem sido extraordinário. Todavia, uma igreja jovem e efervescente tem dificuldades de doutrinar e discipular seus novos membros. Essa é uma realidade na igreja brasileira.

É notório que o uso do Antigo Testamento na prática e na liturgia eclesiástica brasileira tem crescido de maneira substancial. Principal no contexto do louvor e da adoração a ênfase vétero-testamentária é mais do que expressiva. E como percebeu Lutero, a teologia de uma igreja está em seus hinos. Afinal, o que está acontecendo? Para onde estamos indo?

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que o Antigo Testamento representa um fascínio para o povo brasileiro. É repleto de histórias concretas, circunscritas na vida real do povo, no cotidiano de gente comum. É muito mais fácil emocionar-se com uma narrativa como a de Jonas ou de Davi do que acompanhar o argumento de Paulo em vários textos de Romanos. Além disso, o povo brasileiro tem pouca história e raízes muito recentes. O Antigo Testamento, com a rica história do povo de Israel, traz uma espécie de identificação com o povo de nosso país. Talvez isso explique porque tantos brasileiros evangélicos queiram ou procurem ser mais judeus. Em terceiro lugar, devemos considerar a realidade de que a igreja evangélica brasileira quase não tem símbolos ou expressão artística. A maioria dos símbolos cristãos históricos (catedrais, cruzes, etc.) tem identificação católica na realidade nacional. Assim, os evangélicos buscam símbolos para expressar sua fé, e acabam geralmente escolhendo símbolos judaicos ou vétero-testamentários (menorá, estrela de Davi, e etc.).

Este encontro brasileiro-judaico tem muitas facetas positivas: Retomamos uma alegria comemorativa da fé, trazemos a verdade espiritual para a realidade concreta, dificilmente teremos uma igreja anti-semita, enxergamos necessidades sociais e políticas pela força do Antigo Testamento. Todavia, também estamos andando em terreno perigoso e delicado. Algumas considerações são importantes para que a igreja brasileira não perca o rumo por problemas de ordem hermenêutica. Aqui vão algumas sugestões:

1. Nem todo texto bíblico do Antigo Testamento pode ser visto como normativo
A descrição da vida de um servo de Deus do Antigo Testamento não é padrão para nós sempre. Quando Abraão mente em Gênesis, a descrição do fato não o torna uma norma. A poligamia de Salomão, a mentira das parteiras no Egito e o adultério de Davi não podem servir de desculpas para os nossos pecados.

2. Não podemos cantar todo e qualquer texto do Antigo Testamento
É preciso observar quem está falando no texto bíblico. Sem observarmos quem fala, tiraremos conclusões enganosas. Isso é fundamental para se entender o livro de Eclesiastes. No caso de Jó 1.9-10, por exemplo, temos registradas as palavras de Satanás. Isto é fato até no caso do Novo Testamento (veja Jo 8.48).

3. Devemos ensinar que muito da teologia do Antigo Testamento foi superada pelo Novo Testamento
Jesus deixou claro que estava trazendo uma mensagem complementar e superior em relação à antiga aliança. Se não entendermos isto, voltaremos ao legalismo farisaico tão questionado por nosso Senhor. Textos como Números 15.32-36 revelam um exemplo daquilo que não tem mais valor na prática da nova aliança. Todos os elementos cerimoniais da lei não podem mais fazer parte da vida da igreja cristã, pois apontavam para a realidade superior, que se cumpre em Cristo (Cl 2.16-18). Sábados, festas judaicas, dias sagrados, sacrifícios e outros elementos cerimoniais não fazem parte da prática cristã neo-testamentária.

4. Antes de pregar ou cantar um texto do Antigo Testamento é preciso entendê-lo
Nem sempre é fácil entender um texto do Antigo Testamento. Muitos textos precisam ser bem estudados, compreendidos em seu contexto e em sua limitação circunstancial e teológica. Veja por exemplo o potencial destruidor do mau uso de um texto como o Salmo 137.9. Se o intérprete não entender que o texto fala da justiça retributiva divina dada aos babilônios imperialistas, as crianças da igreja correrão sério perigo!

5. Devemos ensinar que vingança e guerra não são valores cristãos
Jesus ordenou que devemos amar até mesmo aqueles que nos odeiam. A justiça imprecatória não faz parte da teologia do Novo Testamento. Há vários salmos que dizem isso, mas tal realidade compreende-se no contexto do Antigo Testamento e não pode ser praticada na igreja cristã. Não podemos cantar “persegui os inimigos e os alcancei, persegui-os e os atravessei” (Sl 18.37.38), quando o Senhor Jesus ordena que devemos perdoar e amar os nossos inimigos (Mt 5.44-45). Hoje já existe até gente “amaldiçoando” outros em nome de Jesus! Teremos o surgimento de uma “violência cristã”?

6. Enfatizemos a verdade de que a adoração do Novo Testamento é superior
O Novo Testamento nos ensina que a adoração legítima independe de lugar, de monte, de cidade e de outros elementos materiais (Jo 4). Jesus insiste em afirmar que Deus procura quem “o adore em Espírito e em verdade”. A tradição evangélica sempre louvou a Deus por seus atos e atributos. Atualmente estamos cada vez mais enfatizando “o monte santo”, “a cidade sagrada”, “a casa de Deus”, “a sala do trono”. Nós somos o “templo de Deus”. Os elementos materiais pouco importam na adoração genuína. É preciso retomar o caminho correto.

7. Devemos ensinar que ser judeu não torna ninguém melhor do que os outros
Alguns evangélicos entendem que “ser judeu” ou “judaizado” os torna de alguma forma “espiritualmente melhor”. O rei Manassés, Anás e Caifás eram judeus! Já há quem expulse demônios em hebraico! Em Cristo, judeus e gentios são iguais perante Deus. Na verdade “não há judeu nem grego” (Gl 3.28) na nova aliança. A igreja cristã já pecou por seu anti-semitismo do passado. Será que irá pecar agora por tornar-se judaizante? Devemos amar judeus e gentios de igual modo. Além disso, podemos e devemos ser cristãos brasileiros. Não precisamos nos tornar judeus para ter um melhor “pedigree” espiritual.

Disciplinas Espirituais



D. A. Carson

Há quase duas décadas, escrevi um artigo intitulado "Quando a espiritualidade é espiritual? Reflexões Sobre Alguns Problemas de Definição". Aqui, eu gostaria de analisar um aspecto deste tema.

A estrutura mais ampla da discussão precisa ser lembrada. "Espiritual" e "espiritualidade" se tornaram palavras notoriamente indistintas. No uso comum, elas quase sempre têm conotações positivas, mas raramente o significado delas se encaixa na esfera do uso bíblico. Pessoas acham que são "espirituais" porque têm certas sensibilidades estéticas, ou porque sentem algum tipo de conexão mística com a natureza, ou porque adotam uma versão altamente personalizada de uma das muitas religiões. (Mas "religião" tende a ser uma palavra de conotações negativas, enquanto "espiritualidade" tem conotações positivas.)

No entanto, nos termos da nova aliança, a única pessoa "espiritual" é aquela que tem o Espírito Santo, derramado sobre indivíduos na regeneração. A alternativa, na terminologia de Paulo, é ser "natural" – meramente humano – e não "espiritual" (1 Co 2.14). Para o cristão cujo vocabulário e conceitos sobre este tema são moldados pelas Escrituras, somente o cristão é espiritual. E, por uma extensão óbvia, aqueles cristãos que mostram virtudes cristãs são espirituais, porque essas virtudes são fruto do Espírito. Aqueles que são meras "crianças em Cristo" (1 Co 3.1), se estão verdadeiramente em Cristo, são espirituais, porque são habitados pelo Espírito, mas sua vida pode deixar muito a desejar. Apesar disso, o Novo Testamento não designa os cristãos imaturos como não espirituais, como se a categoria "espirituais" fosse reservada apenas para os mais maduros, a elite dos eleitos. Isso é um erro muito comum da tradição de espiritualidade da Igreja Católica Romana. Nesta, a vida espiritual e as tradições espirituais estão frequentemente ligadas com fiéis que desejam ir além do que é comum. Essa vida "espiritual" é muitas vezes ligada com ascetismo e, às vezes, com misticismo, ordens de freiras e monges e uma variedade de técnicas que vão além do cristão comum.

Devido ao amplo uso das palavras da família de "espiritual", muito além do Novo Testamento, a linguagem de "disciplinas espirituais" tem se estendido, igualmente, a arenas que tendem a deixar preocupados aqueles que amam o evangelho. Em nossos dias, as disciplinas espirituais podem incluir leitura da Bíblia, meditação, adoração, doar dinheiro, jejuar, solidão, comunhão, obras de beneficência, evangelização, dar esmolas, cuidado da criação, escrever diários, obra missionária e mais. Pode incluir votos de celibato, autoflagelação e cantar mantras. No uso popular, algumas dessas supostas disciplinas espirituais são totalmente divorciadas de qualquer doutrina específica, cristã ou não. Elas são apenas uma questão de técnica. Essa é a razão por que, às vezes, as pessoas dizem: "Quanto à sua doutrina, comprometa-se, por todos os meios, com as confissões evangélicas. Mas, no que diz respeito às disciplinas espirituais, volte-se para o catolicismo ou, talvez, para o budismo". O que é universalmente admitido pela expressão "disciplina espiritual" é que essas disciplinas têm o propósito de aumentar a nossa espiritualidade.

No entanto, à luz da perspectiva cristã, não é possível alguém aumentar sua espiritualidade sem possuir o Espírito Santo e submeter-se à sua instrução e ao seu poder transformadores. As técnicas nunca são neutras. Estão sempre carregadas de pressuposições teológicas, frequentemente não reconhecidas.

Como devemos avaliar essa maneira popular de abordar as disciplinas espirituais? O que devemos pensar sobre as disciplinas espirituais e sua conexão com a espiritualidade definida pelas Escrituras? Algumas reflexões introdutórias:

(1) A busca do conhecimento direto e místico de Deus não é sancionado pelas Escrituras; é, também, perigoso em várias maneiras. Não importa se esta busca é realizada, digamos, no budismo (embora  budistas instruídos provavelmente não falem sobre "conhecimento direto e místico de Deus" – as duas últimas palavras talvez precisem ser omitidas) ou na tradição católica, à maneira de Julian de Norwich. Nenhum desses exemplos reconhece que nosso acesso ao conhecimento do Deus vivo é mediado exclusivamente por Cristo, cuja morte e ressurreição nos reconciliam com o Deus vivo. Buscar o conhecimento direto e místico de Deus é anunciar que a pessoa de Cristo e sua obra sacrificial em nosso favor não são necessárias para o conhecimento de Deus. Infelizmente, é fácil alguém deleitar-se em experiências místicas, prazerosas e desafiadoras em si mesmas, sem conhecer nada do poder regenerador de Deus, alicerçado na obra da cruz de Cristo.

(2) Devemos perguntar o que nos garante incluir algum item numa lista de disciplinas espirituais. Para os cristãos que têm algum senso da função reguladora das Escrituras, nada, certamente, pode ser reputado como uma disciplina espiritual se não é mencionado no Novo Testamento. Isso exclui não somente a autoflagelação, mas também o cuidado da criação. Esta última é,  sem dúvida, uma coisa boa que devemos fazer; é parte de nossa responsabilidade como administradores da criação de Deus. Mas é difícil pensarmos em uma base bíblica para que entendamos essa atividade como uma disciplina espiritual – ou seja, uma disciplina que aumenta a nossa espiritualidade. A Bíblia fala muito sobre oração e guardar a Palavra de Deus em nosso coração, mas diz muito pouco sobre o cuidado da criação e o cantar mantras.

(3) Algumas das coisas incluídas na lista são levemente ambíguas. Em um nível, a Bíblia não diz nada sobre escrever diários. Por outro lado, isto pode ser apenas uma designação conveniente para referir-se a autoexame cuidadoso, contrição, leitura bíblica meditativa e oração sincera. E o hábito de fazer registros em um diário para fomentar essas quatro atividades não pode ser descartado da mesma maneira como temos de rejeitar a autoflagelação.

O apóstolo declarou que o celibato é uma coisa excelente, se a pessoa tem o dom (tanto o casamento quanto o celibato são designados carismata – "dons da graça") e o celibato contribui para um ministério aprimorado (1 Co 7). Por outro lado, nada sugere que o celibato é um estado intrinsecamente mais santo; e nos termos da nova aliança nada existe que sancione o retirar-se para mosteiros de freiras ou monges celibatários que se separaram fisicamente do mundo para se tornarem mais espirituais. A meditação não é um bem intrínseco. Grande parte da meditação depende do foco da própria pessoa. O foco é um ponto escuro imaginário em uma folha de papel branco? Ou é a lei do Senhor (Sl 1.2)?

(4) Até aquelas disciplinas espirituais que todos reconheceriam como tais não devem ser mal compreendidas ou abusadas. A própria expressão é potencialmente enganadora: disciplina espiritual, como se houvesse algo intrínseco no autocontrole e na imposição da autodisciplina que qualifica alguém a ser mais espiritual. Essa suposição e essas associações mentais só podem levar à arrogância. E o que é pior: elas levam frequentemente ao hábito de julgar os outros como inferiores. Os outros podem não ser tão espirituais como eu, visto que sou tão disciplinado que tenho um excelente tempo de oração ou um ótimo esquema de leitura da Bíblia. Mas o elemento verdadeiramente transformador não é a disciplina em si mesma, e sim o valor da tarefa realizada: o valor da oração, o valor da leitura da Palavra de Deus.

(5) Não é proveitoso fazer uma lista variada de responsabilidades cristãs e rotulá-las de disciplinas espirituais. Isso parece ser o argumento que está por trás da teologia introduzida inapropriadamente, por exemplo, no cuidar da criação e no dar esmolas. Mas, pela mesma lógica, se motivado por bondade cristã, você faz massagem nas costas de uma senhora que tem pescoço rígido e ombro inflamado, este massagear as costas se torna uma disciplina espiritual. Por essa mesma lógica, uma obediência cristã é uma disciplina espiritual, ou seja, ela nos torna mais espirituais.

Usar a categoria de disciplinas espirituais desta maneira tem duas implicações infelizes. Primeira, se cada instância de obediência é uma disciplina espiritual, não há nada especial nos meios de graça, ordenados e bastante enfatizados nas Escrituras, como, por exemplo, a oração, a leitura séria e a meditação na Palavra de Deus. Segundo, essa maneira de pensar sobre as disciplinas espirituais nos induz sutilmente a pensar que o crescimento em espiritualidade é uma função de nada mais do que conformidade com as exigências de muitas regras, de muita obediência. Certamente, a maturidade cristã não é manifestada onde não há obediência. Contudo, há também grande ênfase no crescimento em amor, em confiança, em entendimento dos caminhos do Deus vivo, na obra do Espírito de encher-nos e capacitar-nos.

(6) Por essas razões, parece ser sábio restringir a designação "disciplinas espirituais" a aquelas atividades prescritas na Bíblia, que são declaradas explicitamente como meios de aumentar nossa santificação, nossa conformidade com Cristo, nossa maturação espiritual. Em João 17, quando Jesus rogou que seu Pai santificasse seus seguidores por meio da verdade, ele acrescentou: "A tua palavra é a verdade". Não é surpreendente que os crentes tenham há muito chamado de "meios de graça" coisas como o estudo da verdade do evangelho. "Meios de graça" é uma expressão agradável e menos susceptível a mal-entendidos do que "disciplinas espirituais".

Tradução: Wellington Ferreira
Copyright © D. A. Carson 2011
Copyright © Editora Fiel 2011
Traduzido do original em inglês: Spiritual Disciplines. Publicado no site The Gospel Coalition.